A primeira gota caiu bem no meio da testa, um estalo frio, preciso, como quem bate com o dedo para chamar atenção, e eu estava parado na esquina da Avenida Rebouças com a Avenida Faria Lima segurando o celular ainda aceso, a tela mostrando o resto da manhã que a Alexa tinha prometido seca, trinta por cento de chance, margem de erro, eu pensei, essas porcentagens são feitas para tranquilizar gente apressada, e guardei o telefone no bolso já sentindo o tecido da calça começar a escurecer.
Em menos de cinco minutos o céu resolveu se explicar melhor, e eu virei um pinto molhado de quintal, desses que não sabem para onde correr, atravessando a rua com o tênis branco recém-parcelado sugando água suja, o cadarço pesado, a meia desistindo do pé, e a cidade fazendo aquele barulho específico de chuva grossa batendo em lataria, marquise, lixeira tombada, um barulho que não cresce, apenas ocupa tudo.
A chuva de São Paulo não cai, ela espera, ela observa você sair sem guarda-chuva porque não vai chover, ela vê você calçar o tênis novo, passar perfume, pegar a bolsa certa, e só então despenca com método, uma violência sem pressa, e não é uma força da natureza, é uma personalidade antiga, treinada desde 1554 para humilhar gente confiante.
Entrei na estação com o resto da multidão, todo mundo escorrendo, uma fila de homens e mulheres torcendo a barra da calça, batendo o pé no chão, e ali, enquanto eu apertava o tênis para ver se a água saía, apareceu o rio, não no mapa, mas na rua, um caldo marrom descendo a Rebouças, espumoso, carregando garrafa pet, isopor, sacola plástica, latinha amassada, um chinelo órfão e algo que parecia um pedaço de cadeira, e o fluxo seguia decidido, como se soubesse exatamente para onde ir.
O sujeito ao meu lado, cabelo colado na testa, mochila encharcada, comentou que a prefeitura não faz nada, e balançou a cabeça com a convicção de quem resolveu o problema da cidade em uma frase, e eu quase concordei porque concordar é confortável, porque culpar a prefeitura é um esporte que não exige preparo físico, mas me veio à cabeça o homem de terno da semana passada, saindo de um Uber preto, jogando um copo de café vazio na sarjeta com um gesto automático, elegante até, como se estivesse cumprindo um ritual urbano.
Vieram outros flashes, o vizinho da sacada cuspindo bituca para a rua, a moça da padaria despejando óleo quente no ralo, e eu mesmo, alguns dias antes, deixando cair o papel da bala no chão e seguindo em frente com a consciência aliviada pela pequenez do objeto, e o rio continuava passando diante de nós, recebendo tudo sem reclamar.
A verdade tem um jeito feio de se apresentar, e naquele momento ela vinha em forma de espuma suja: São Paulo é administrada por gente mediana eleita por gente que suja a rua, uma simbiose perfeita, sem vilão central, sem herói disponível, e eu nem sabia dizer de qual partido era o prefeito, ninguém nunca sabe, porque o problema é anterior ao nome, ao cargo, ao mandato.
Quando chove, surgem os especialistas, todo mundo fala de bueiro, galeria, piscinão, palavras técnicas cuspidas com raiva, e eu concordo, a gestão é falha, o planejamento manca, mas o córrego não se entope sozinho, ele não acorda um dia decidido a invadir a Marginal Pinheiros por capricho, ele é alimentado aos poucos, diariamente, por gestos pequenos demais para gerar culpa.
Enquanto eu pensava nisso, tentando não pensar na meia fria, uma senhora passou por nós com cinco sacolas de supermercado e um guarda-chuva rosa exagerado, pisou numa poça funda, escorregou um centímetro e se recuperou com uma torção elegante do corpo, técnica pura, e seguiu adiante sem olhar para trás, com aquela expressão que mistura cansaço e prática, como quem já viu a água subir e descer mais vezes do que consegue contar.
Ela desviava das poças como uma bailarina envelhecida do Theatro Municipal, sem aplauso, sem plateia, apenas executando o movimento necessário para chegar em casa, e eu senti inveja não da habilidade, mas da aceitação, ela já tinha entendido o acordo silencioso que a cidade propõe.
São Paulo oferece o melhor e o pior no mesmo quarteirão, restaurante impecável e buraco assassino, museu com ar-condicionado e esgoto a céu aberto, prédio inteligente e gestor burro, cidadão indignado e cidadão porco, e não dá para separar uma coisa da outra com fita zebrada.
A chuva diminuiu sem aviso, como quem perde o interesse, e eu saí do metrô com o cheiro de roupa molhada grudado no corpo, o céu ainda fechado, mas respirável, e no caminho de casa vi três papéis de bala no chão, brilhando de um jeito quase infantil, e me abaixei para pegar, não por virtude, mas por constrangimento tardio.
Guardei no bolso, sentindo o volume mínimo contra a perna, e caminhei quatro quarteirões até achar uma lixeira, um trajeto curto que costuma parecer longo demais para quem está sempre atrasado, e joguei os papéis fora com um gesto sem cerimônia, como se estivesse devolvendo algo que nunca deveria ter sido meu.
Quando chover de novo, e vai chover, eu não pretendo reclamar, não porque aprendi alguma coisa, mas porque já sei o papel que me cabe, vou apenas atravessar a rua com o tênis errado, a previsão errada, o corpo errado, e deixar a água passar, fazendo o barulho de sempre, carregando o que a gente insiste em largar pelo caminho.